Os Sumérios


 


Os Sumérios 

Os Sumérios: a Primeira Civilização Urbana da História

A civilização suméria é amplamente reconhecida pelos historiadores como a mais antiga civilização urbana conhecida, florescendo no sul da Mesopotâmia — região situada entre os rios Tigre e Eufrates, no atual Iraque — por volta de 3.500 a.C. até aproximadamente 2.000 a.C. Obras de historiadores como Samuel Noah Kramer, Thorkild Jacobsen, Jean Bottéro, Georges Roux e Piotr Steinkeller confirmam que os sumérios criaram algumas das bases culturais, tecnológicas, religiosas e políticas que moldariam as civilizações posteriores, incluindo os acádios, babilônios, assírios, persas e até os gregos.

Origem e Formação da Civilização Suméria

A origem dos sumérios ainda é objeto de debate. Não há consenso absoluto sobre sua procedência étnica. Alguns estudiosos, como Samuel Noah Kramer, sugerem que eles vieram do leste, possivelmente da região do planalto iraniano, enquanto outros defendem que podem ter se desenvolvido na própria Mesopotâmia como um grupo distinto. Independentemente de sua origem, por volta de 3.500 a.C. já haviam formado cidades-Estado como Uruk, Ur, Eridu, Lagash, Nippur e Kish.

Foi em Uruk que ocorreu um dos maiores saltos culturais da humanidade: o surgimento da escrita cuneiforme, originalmente usada para registros econômicos. Segundo o historiador Jean Bottéro, a escrita nasceu da necessidade administrativa em uma sociedade complexa, com templos, redistribuição de grãos, trabalhadores e burocracia organizada.

Política e Sociedade

A sociedade suméria era organizada em cidades-Estado independentes, cada uma com seu próprio governante, chamado ensi (príncipe-sacerdote) ou lugal (rei). Essas cidades frequentemente guerreavam entre si por recursos — sobretudo terra e água, essenciais para a agricultura irrigada.

A estrutura social era hierárquica: no topo, o rei e a elite sacerdotal; abaixo, os escribas, artesãos e mercadores; em seguida, camponeses e trabalhadores; e, na base, escravos (geralmente prisioneiros de guerra). A mulher suméria podia possuir propriedades, fazer contratos e até ocupar o sacerdócio, embora a sociedade fosse predominantemente patriarcal.

A economia era baseada na agricultura, com cultivo de cevada, trigo, tâmaras e criação de animais. O controle dos canais de irrigação era vital, o que levou ao desenvolvimento de administração e engenharia hidráulica sofisticadas. As cidades também mantinham comércio com regiões distantes, como o planalto iraniano, a Anatólia, o vale do Indo e o Golfo Pérsico.

Avanços Culturais e Tecnológicos

Entre as contribuições mais notáveis dos sumérios estão:

  • Escrita cuneiforme, a mais antiga forma escrita plenamente desenvolvida;

  • Sistema sexagesimal (base 60), que originou nossa divisão de tempo em 60 segundos e 60 minutos;

  • A invenção da roda (aprox. 3.300 a.C.);

  • Arquitetura monumental, com destaque para os zigurates;

  • Primeiros códigos legais, como o de Ur-Nammu, anterior ao código de Hamurábi;

  • Mitologia rica, que influenciaria as narrativas posteriores da Babilônia e Assíria.

O poema épico Gilgamesh, composto em sumério e depois em acadiano, é considerado a mais antiga obra literária da humanidade.

Religião e os Deuses Sumérios

A religião suméria era politeísta, complexa e estreitamente ligada à organização política. Cada cidade-Estado possuía um deus patrono, e o rei era visto como representante do deus na terra.

Entre os principais deuses estavam:

DeusFunçãoCidade principal
An (Anu)Deus do céu, pai dos deusesUruk
EnlilDeus do ar, das tempestades, da autoridadeNippur
Enki (Ea)Deus da sabedoria, magia e águas subterrâneasEridu
Inanna (Ishtar)Deusa do amor, fertilidade e guerraUruk
NinhursagDeusa da terra e maternidadeKish
Utu (Shamash)Deus do sol e da justiçaSippar, Larsa
Nanna (Sin)Deus da luaUr

Segundo Thorkild Jacobsen, os sumérios concebiam os deuses como seres antropomórficos e poderosos, mas não necessariamente moralmente perfeitos. Os deuses trabalhavam, comiam e até cometiam erros. As oferendas aos deuses garantiam a ordem cósmica (me), conceito central para a teologia suméria.

Os zigurates funcionavam como templos elevados, simbolizando a ligação entre céu e terra. Eles não eram locais de culto popular, mas sedes do deus, onde apenas sacerdotes podiam entrar.

Mitologia e Cosmogonia

O mito sumério da criação relata que o universo surgiu de um oceano primordial chamado Nammu. Dela nasceram An (céu) e Ki (terra), que geraram Enlil, responsável por separar céu e terra e estabelecer a ordem.

O mito do Dilúvio sumério, registrado no épico de Ziusudra, é o mais antigo relato conhecido de um grande dilúvio enviado pelos deuses — anterior às versões acádia (Atrahasis) e babilônica (Utnapishtim, no épico de Gilgamesh) e possivelmente anterior até ao relato bíblico de Noé. Essa narrativa demonstra a preocupação suméria com a instabilidade da relação entre humanos e deuses.

Decadência e Legado

Por volta de 2.300 a.C., os sumérios foram dominados pelos acádios liderados por Sargão de Akkad, que fundou o primeiro império semita da história. Mais tarde, os sumérios recuperaram autonomia durante a Terceira Dinastia de Ur (Ur III), sob Ur-Nammu e Shulgi, mas por volta de 2.000 a.C. foram definitivamente absorvidos por povos amoritas e elamitas.

Embora a língua suméria tenha deixado de ser falada, continuou por mais de mil anos como língua litúrgica e escolar — assim como o latim na Idade Média. Sua cultura foi a base da civilização mesopotâmica posterior.

Como afirma Samuel Noah Kramer em A História Começa na Suméria, “quase todos os grandes elementos da civilização — escrita, Estado, lei, matemática, literatura — têm raízes em Sumer”.

📚 Bibliografia Utilizada

Obras de referência sobre os sumérios e a Mesopotâmia

  1. KRAMER, Samuel Noah. History Begins at Sumer: Thirty-Nine Firsts in Recorded History. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1981.

  2. KRAMER, Samuel Noah. The Sumerians: Their History, Culture and Character. Chicago: University of Chicago Press, 1963.

  3. BOTTÉRO, Jean. Naissance de Dieu: La Bible et l'historien. Paris: Gallimard, 1986.

  4. BOTTÉRO, Jean. La plus vieille religion: En Mésopotamie. Paris: Gallimard, 1998.

  5. JACOBSEN, Thorkild. The Treasures of Darkness: A History of Mesopotamian Religion. Yale University Press, 1976.

  6. ROUX, Georges. Ancient Iraq. London: Penguin Books, 1992 (3ª ed.).

  7. STEINKELLER, Piotr. "Early Semitic Loanwords in Sumerian and the Prehistory of the Mesopotamian Lexicon." In: Studia Orientalia, vol. 64, 1988.

  8. KOVACS, Maureen Gallery (trad.). The Epic of Gilgamesh. Stanford: Stanford University Press, 1989.

  9. WATSON, George; HORNBLOWER, Simon. Oxford Companion to Classical Civilization. Oxford University Press, 1998.

  10. POSTGATE, J. N. Early Mesopotamia: Society and Economy at the Dawn of History. London: Routledge, 1992.


🔍 Referências usadas no texto (como seriam citadas)

  1. A ideia de origem incerta dos sumérios é discutida por Kramer (1963, p. 29-31) e Roux (1992, p. 47-52).

  2. O surgimento da escrita cuneiforme como necessidade administrativa é explicada por Bottéro (1998, p. 52-57).

  3. A estrutura social e política (ensi, lugal, templos, escravidão) é analisada por Postgate (1992, p. 74-93).

  4. A invenção da roda e o sistema sexagesimal são descritos em Kramer (1981, p. 34-38).

  5. A religião suméria e seu caráter antropomórfico são detalhados por Jacobsen (1976, p. 15-40).

  6. A lista dos principais deuses e cidades-templo baseia-se em Bottéro (1998, p. 105-140) e Kramer (1963, p. 117-138).

  7. O mito do Dilúvio em Ziusudra e sua relação com Atrahasis e Utnapishtim são comparados por Kovacs (1989) e Bottéro (1986, p. 206-214).

  8. A afirmação de que "a história começa na Suméria" é de Kramer (1981, p. 1).

  9. O declínio final dos sumérios com o avanço dos acádios, amoritas e elamitas é analisado por Roux (1992, p. 163-172).

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