A Origem do Mal
A ORIGEM E O MISTÉRIO DO MAL: UMA VISÃO TEOLÓGICA E JUDAICA
O problema do mal é um dos temas mais antigos e profundos da reflexão religiosa. Desde as primeiras narrativas bíblicas até os escritos dos grandes teólogos e filósofos cristãos, e desde a tradição rabínica até a mística judaica, o mal se apresenta como uma realidade paradoxal: ele existe, mas não pode ser atribuído a Deus como causa direta; atua no mundo, mas não possui existência própria; e ao mesmo tempo é instrumento de provação, consequência da liberdade humana e sinal da desordem moral introduzida pela criatura. Explorar sua origem, definição e propósito exige atravessar textos, tradições e interpretações que tentam responder às perguntas fundamentais: De onde veio o mal? Como ele surgiu? O que ele é? Por que Deus permite sua existência?
1. A criação boa e a ausência do mal
A tradição bíblica começa com uma afirmação decisiva: “Deus viu tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gênesis 1:31). Tanto os Pais da Igreja quanto os teólogos medievais insistem que o mal não faz parte da criação original. Para Agostinho de Hipona, o mal não é uma substância criada por Deus, mas uma privação do bem (privatio boni). Isso significa que o mal não possui existência positiva: ele é um vazio, um desvio, uma corrupção da ordem criada. Nada foi criado mau; a criação, por natureza, reflete a bondade do Criador.
Essa concepção nasce em oposição a ideias antigas — presentes, por exemplo, no maniqueísmo — que entendiam o mal como um princípio eterno dualista. Agostinho, após abandonar esse sistema, compreendeu que atribuir ao mal existência própria seria diminuir a soberania divina e criar um “outro deus” rival. Assim, sua teologia defende que o mal surge não como criação, mas como corrupção.
A tradição judaica concorda com esse ponto fundamental. O mal não aparece nos primeiros capítulos como elemento criado; ele surge quando há transgressão, desordem e afastamento de Deus. O yetzer hara — a inclinação má — é entendido pelos rabinos não como uma entidade maligna absoluta, mas como uma força interna que pode ser orientada para o bem ou para o mal. Para a tradição judaica, não existe um “segundo deus” do mal. Há apenas o Deus único, cuja criação é boa, mas que deu ao ser humano liberdade real.
2. A origem do mal moral: liberdade e queda
Se Deus não criou o mal, de onde ele veio? Os teólogos cristãos e os rabinos respondem: da liberdade da criatura.
A queda dos anjos
Agostinho, Orígenes, Tertuliano e Tomás de Aquino afirmam que o primeiro mal moral surge com a rebelião dos anjos. Tomás ensina que os anjos, criados bons e dotados de intelecto e vontade, escolheram se afastar de Deus por orgulho — “o início de todo pecado”. A tradição judaica, especialmente nos midrashim e no Livro de Enoque, fala da rebelião de anjos (como os “Vigilantes”), embora a teologia judaica clássica dê menos foco à queda angelical do que a cristã.
Assim, o mal moral começa quando uma criatura livre volta-se contra o Criador.
A queda humana
O mal entra na experiência humana na narrativa de Gênesis 3. A tradição cristã vê aqui a introdução do pecado, a ruptura da comunhão com Deus e o início da desordem moral e espiritual. Agostinho chama esse evento de “peccatum originale”, não no sentido de herança biológica, mas de uma condição de desordem e inclinação ao mal.
A tradição judaica, porém, lê o episódio de forma mais ética que ontológica: Adão e Eva introduzem no mundo não uma corrupção essencial da natureza humana, mas a consciência moral, o conflito entre o yetzer hatov (inclinação boa) e o yetzer hara (inclinação má). O fracasso humano está ligado a escolhas morais, não a uma condenação herdada.
3. A natureza do mal: o que ele é?
Ao longo da história, três concepções principais definiram o mal:
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Mal como privação do bem (Agostinho, Tomás de Aquino):O mal é ausência de ordem, de forma, de bondade. Assim como a escuridão é ausência de luz, o mal é ausência de bem. Deus não é causa do mal porque o mal não possui ser.
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Mal como distorção da vontade:Tanto para os Pais da Igreja quanto para os rabinos, o mal ocorre quando a vontade humana ou angélica se afasta do fim que deveria buscar: Deus.
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Mal como impulso potencialmente bom (tradição judaica):O yetzer hara, embora fonte de pecado, também é fonte de criatividade, desejo, sobrevivência e impulso. No Talmude, alguns rabinos dizem que sem essa inclinação não haveria trabalho, casamento, comércio. O mal, aqui, não é um “ser”, mas um impulso fora de controle.
4. O mal físico e o mistério do sofrimento
Além do mal moral, existe o mal físico: dor, doença, tragédias, catástrofes. Esse é o aspecto mais difícil.
Os teólogos cristãos afirmam que o mal físico surge como consequência indireta do pecado ou da condição de queda. Contudo, ele também pode ser visto como:
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meio pedagógico (Gregório de Nissa, Crisóstomo): sofrimento que purifica;
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provação (Tiago 1, tradição judaica): revelação do caráter;
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mistério: algo cuja razão última pertence somente a Deus.
O livro de Jó é o centro da reflexão judaica. Em nenhum momento Deus explica a Jó o motivo de seu sofrimento; Ele revela apenas que Jó não possui a perspectiva necessária para compreender todos os desígnios. A tradição cristã retoma este ponto: o mal muitas vezes não é resolvido intelectualmente, mas vencido existencialmente.
5. O propósito do mal: por que Deus permite?
Essa é a pergunta decisiva — e a mais difícil.
1. Para garantir a liberdade da criatura
Agostinho e Tomás ensinam que um mundo com criaturas livres necessariamente implica a possibilidade do mal. Sem liberdade, não há amor, virtude, mérito. Um mundo sem mal seria um mundo sem liberdade — e, por isso, inferior.
2. Para trazer bens maiores
Agostinho afirma que Deus permite o mal porque pode dele extrair bens maiores. O exemplo máximo é a cruz: o maior mal humano — a morte do Justo — se torna o instrumento da maior salvação.
3. Para aperfeiçoamento moral
Os Pais da Igreja, como Irineu de Lyon, veem no sofrimento e na luta contra o mal um caminho de amadurecimento espiritual. Irineu fala da vida humana como processo de “educação para a semelhança de Deus”.
4. Para revelar a justiça divina
A tradição judaica enfatiza o conceito de midat hadin (medida da justiça): o mal existe porque o mundo é regido por uma ordem moral. Mesmo quando Deus é misericordioso, o mal revela que a criação responde moralmente às ações humanas.
5. Para revelar o bem absoluto
Sem contraste, não se percebe a luz. Para muitos teólogos, o mal funciona como pano de fundo para a revelação da bondade divina. Não significa que Deus queira o mal, mas que sua presença paradoxal permite a experiência da graça.
6. O fim do mal
A tradição cristã ensina que o mal não é eterno. Em Apocalipse, Deus derrota definitivamente Satanás e toda forma de dor. O mal tem início e terá fim.
Na tradição judaica, no Olam Haba (mundo vindouro), o mal será removido e toda criação será restaurada à harmonia do Éden.
1. REFERÊNCIAS USADAS NO TEXTO
Referências Bíblicas
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Gênesis 1–3 – Criação, queda, bondade original do mundo, surgimento do mal moral.
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Jó 1–42 – Discussão sobre sofrimento, provação, justiça divina.
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Isaías 45:7 – “Eu formo a luz e crio as trevas…" (interpretações judaicas e cristãs do mal físico).
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Tiago 1:2–4; 1:13–15 – Provação e natureza da tentação.
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Apocalipse 20–21 – Derrota final do mal.
Pais da Igreja e Teólogos Cristãos
Santo Agostinho
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Confissões, especialmente livros VII e VIII (crítica ao maniqueísmo e definição do mal como privação).
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A Cidade de Deus, livros XI, XII e XIV (origem do mal, queda dos anjos e queda humana).
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Enchiridion (tratado sobre o bem, o mal e a providência divina).
Tomás de Aquino
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Suma Teológica, I, q.48 (natureza do mal), q.63–64 (queda dos anjos), q.22–23 (providência).
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Suma Contra os Gentios, III, cap. 1–3 (providência e permissão do mal).
Irineu de Lyon
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Contra as Heresias, Livro IV (a pedagogia de Deus e o crescimento moral).
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Demonstratio Apostolica (o processo de maturidade humana e liberdade).
João Crisóstomo
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Homilias sobre Jó (sofrimento como transformação espiritual).
Gregório de Nissa
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A Grande Catequese e Da Criação do Homem (propósito do mal e liberdade).
Orígenes
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De Principiis, Livro I (queda dos seres racionais e natureza do mal).
Tradição Judaica (Fontes Clássicas)
Tanakh e Comentários
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Torá, especialmente Bereshit (Gênesis) 1–3.
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Ketuvim, especialmente o Livro de Jó.
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Isaías 45:7 e tradições interpretativas rabínicas associadas.
Talmude
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Talmud Bavli, Berakhot 61a – discussão sobre yetzer hatov e yetzer hara.
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Avot de-Rabbi Natan 16 – natureza da inclinação má e sua função social.
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Sukkah 52a – debates rabínicos sobre a inclinação má e sua força.
Midrash
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Bereshit Rabbah 14:4; 17:1; 22:6 – reflexões sobre a inclinação má e a queda.
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Midrash Tanchuma, Bereshit 7 – relação entre o pecado, o mal e a ordem moral.
Literatura Intertestamentária
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1 Enoque (especialmente caps. 6–16) – queda dos “Vigilantes” e origem do mal espiritual.
2. BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA
Sobre a origem e natureza do mal
-
HICK, John. Evil and the God of Love. HarperCollins, 1966.
-
PLANTINGA, Alvin. God, Freedom and Evil. Eerdmans, 1977.
-
BARTH, Karl. Church Dogmatics, III.3 – Criação, providência e problema do mal.
-
MILBANK, John. Being Reconciled – reflexões sobre o mal como parasitismo.
Sobre os Pais da Igreja e a queda
-
AGOSTINHO. A Cidade de Deus.
-
AGOSTINHO. Confissões.
-
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica.
-
IRINEU DE LYON. Contra as Heresias.
-
ORÍGENES. De Principiis.
-
GREGÓRIO DE NISSA. The Great Catechism.
Sobre o mal na tradição judaica
-
NEUSNER, Jacob. A History of the Jews in Babylonia — análise do pensamento rabínico.
-
SCHERMER, Adam. The Yetzer Hara in Rabbinic Literature.
-
GOLDBERG, J. Evil and Suffering in Jewish Thought.
-
SAFRAN, Bezalel. Jewish Mysticism and the Problem of Evil.
-
MUNK, Elie. The Call of the Torah: comentários clássicos sobre Bereshit e o mal.
Comentários bíblicos úteis
-
WALTKE, Bruce. Genesis: A Commentary.
-
ALTER, Robert. The Hebrew Bible: A Translation with Commentary.
-
NEWSOM, Carol. The Book of Job: A Commentary on the Hebrew Bible.
Obras gerais
-
RUSSELL, Jeffrey Burton. The History of Evil (vários volumes).
-
GIRARD, René. O Bode Expiatório – análise mimética da violência e do mal.



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